Epístolas Paulinas: Teologia da Igreja Primitiva
As epístolas de Paulo, escritas entre 49 e 66 D.C., representam a explicação teológica da história da redenção e as implicações éticas para a vida da Igreja. Elas podem ser divididas em grupos que refletem diferentes momentos da carreira do apóstolo, desde a consolidação doutrinária até a organização institucional das comunidades cristãs.
1. As Primeiras Epístolas de Paulo
Gálatas
O livro foi escrito para combater os judaizantes, cristãos judeus que ensinavam que os convertidos gentios eram obrigados a se submeter à circuncisão e observar a lei de Moisés como condição para a salvação. Para Paulo, essa doutrina subvertia o evangelho, pois tornava a morte de Cristo inútil se a justiça pudesse ser obtida pelas obras da lei.
A lei na epístola aos Gálatas como um andaime de uma construção ele necessário e útil durante a obra o período antes de Cristo para sustentar os trabalhadores, mas, uma vez que o edifício a fé em Cristo está pronto, manter o andaime torna-se um obstáculo que esconde a beleza da estrutura final. Os judaizantes queriam obrigar os moradores a viverem no andaime, enquanto Paulo os convidava para desfrutar do interior da casa.
I Tessalonicenses
O tema central desta primeira carta é o elogio à fidelidade dos tessalonicenses e o consolo diante da morte de membros da comunidade.
Paulo escreveu após receber um relatório favorável de Timóteo, que indicava que a igreja, composta majoritariamente por gentios convertidos, permanecia firme apesar da perseguição dos judeus incrédulos.
Os crentes de Tessalônica estavam entristecidos, temendo que os irmãos falecidos perdessem os privilégios da volta de Cristo. Paulo os consola explicando que os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro, e os crentes vivos serão transformados e arrebatados juntamente com eles para encontrar o Senhor nos ares.
O apóstolo adverte que o dia do Senhor virá de surpresa, como um ladrão de noite... exigindo que os cristãos vivam de forma santa e vigilante.
II Tessalonicenses
Escrita pouco tempo após a primeira, esta epístola visava aquietar o fanatismo que havia surgido na igreja devido à crença de que o retorno do Senhor era imediato ou já havia ocorrido.
Devido expectativa fanática da Parousia (o Dia do Senhor), alguns crentes haviam abandonado suas ocupações e viviam ociosamente. Paulo os repreende severamente, ordenando que retornem ao trabalho e a igreja discipline aqueles que persistem na desobediência.
2. As Epístolas Principais: Fundamentos da Fé e Ordem Eclesiástica
Este grupo inclui Romanos, I e II Coríntios, livros que abordam profundamente a justificação e os desafios da vida comunitária.
Romanos
Escrita em Corinto para preparar a visita de Paulo a Roma, esta epístola é o tratado mais sistemático sobre o evangelho. Seu tema central é a justificação pela graça mediante a fé.
Paulo detalha a pecaminosidade universal judeus e gentios, a propiciação através da morte de Cristo e o poder do Espírito Santo para a santificação, culminando na promessa da restauração futura de Israel.
I Coríntios
Escrita em Éfeso para corrigir problemas de moral, divisões internas e dúvidas doutrinárias.
Paulo aborda temas como o uso de dons espirituais (glossolalia), a ordem no culto, o casamento e a centralidade da ressurreição física de Cristo e dos crentes.
II Coríntios
Redigida na Macedônia, a epístola mais pessoal de Paulo, onde ele expressa seus sentimentos íntimos sobre o ministério e defende sua autoridade apostólica contra uma minoria recalcitrante.
3. As Epístolas da Prisão: A Preeminência de Cristo e Sua Igreja
Escritas provavelmente durante o aprisionamento de Paulo em Roma cerca de 60-61 D.C., estas cartas focam na identidade de Cristo e no papel da Igreja como Seu corpo.
Efésios
Diferente das outras, uma epístola meditativa e circular, focada nos privilégios espirituais da Igreja e na unidade entre judeus e gentios, agora um só corpo em Cristo.
Filipenses
Uma nota de agradecimento afetuosa pelo apoio financeiro recebido. Destaca-se pelo hino da Kenosis o autoesvaziamento de Cristo e pela exortação à alegria mesmo em meio às adversidades.
Colossenses
Combate à heresia colossense uma mistura de legalismo judaico, filosofia grega e misticismo reafirmando a supremacia de Cristo como Criador, Sustentador e Cabeça da Igreja.
Filemom
Um apelo pessoal e diplomático para um senhor cristão receber de volta seu escravo fugido, Onésimo, agora como um irmão em Cristo.
4. As Epístolas Pastorais: Organização e Ortodoxia
I e II Timóteo e Tito foram escritas para jovens pastores para orientar a administração das igrejas e a preservação da sã doutrina.
I Timóteo e Tito
Tratam da organização eclesiástica, estabelecendo as qualificações para bispos ou anciãos e diáconos, além de orientar sobre o cuidado com diferentes grupos, como viúvas e escravos.
II Timóteo
Escrita durante o segundo aprisionamento de Roma, pouco antes do martírio de Paulo. É um testamento espiritual onde Paulo exorta Timóteo à fidelidade, pregação da Palavra e ao combate aos falsos mestres, sabendo que sua própria carreira estava chegando ao fim.
Conclusão
O coração pulsante das epístolas ora estudadas é o zelo pastoral de Paulo. Seus escritos revelam a profundidade de suas emoções. O clímax emocional alcançado em II Timóteo, seu último testamento, onde a exortação final à fidelidade tingida pela consciência de seu martírio iminente e o desejo ardente de que a Palavra prevaleça. As epístolas de Paulo apresentam o espírito de um homem que se consumiu pela igreja. Elas são um lembrete vivo de que a verdadeira teologia não deve ser abstrata, mas forjada no calor da vida comunitária, na dor da perseguição e na imensa alegria da graça redentora. O legado de Paulo é o de um pastor que, em cada linha escrita, derramou sua vida pela causa de Cristo.
Referência
GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. Robert H. Gundry. 2ª edição, 1998. São Paulo: Vida Nova. Ver preço na Amazon