O Verbo Se Fez Carne
O Deus Único Manifestado em Carne
1 – No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
2 – Ele estava no princípio com Deus.
3 – Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
4 – Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
5 – A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.
6 – Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João.
7 – Este veio como testemunha, para testificar da luz, a fim de que todos cressem por meio dele.
8 – Ele não era a luz, mas veio para testificar da luz.
9 – Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo homem que vem ao mundo.
10 – Estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o conheceu.
11 – Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
12 – Mas, a todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus;
13 – os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.
14 – E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
Irmãos, poucos textos da Bíblia têm a força do prólogo de João. Segundo o teólogo Henry, um filósofo antigo disse que esses versículos mereciam ser escritos em letras de ouro. E há o relato de um erudito que, ainda jovem e confuso em suas crenças, abriu a Bíblia por acaso nesta passagem e ficou tão abalado com a majestade do que leu que passou o dia inteiro atônito. Dali começou a sua jornada com Deus.
O que João faz nestes versículos é anunciar, logo de início, a tese do seu Evangelho: o Deus invisível, único e eterno, se revelou em carne, e o nome dessa revelação é Jesus Cristo.
Hoje não vamos apenas admirar um texto bonito. Vamos contemplar o maior mistério da piedade: "Deus foi manifestado em carne" (1 Timóteo 3:16).
- Um só Deus: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Deuteronômio 6:4).
- Esse mesmo Deus, o Criador de tudo, entrou na história humana.
- Não foi um segundo deus, nem uma segunda Pessoa da divindade: foi o próprio Deus, vestido de carne.
1.1 – "No princípio era o Verbo": ele não tem começo.
João usa a palavra grega Logos. O mundo teve um princípio, mas o Verbo já existia quando tudo começou. Aquilo que estava "no princípio" nunca começou: é eterno. Isso nos diz que a revelação de Deus em Cristo não foi uma ideia de última hora. Faz parte do ser eterno de Deus.
1.2 – O que é o Verbo? A palavra pensada que se torna palavra falada.
Os antigos explicavam o Logos de dois jeitos: a palavra concebida (o pensamento, o plano, a mente) e a palavra proferida (a fala, a expressão). Pense assim: antes de falar, você pensa. O pensamento já existe dentro de você e é você. Quando fala, o pensamento se manifesta e se torna conhecido. O Verbo é o pensamento, o plano e a sabedoria de Deus, que sempre estiveram nele, e que em Cristo foram proferidos e manifestados à humanidade.
- Antes da carne, o Verbo era o plano eterno de Deus de se revelar e salvar.
- Em Cristo, esse plano ganhou rosto, voz e mãos.
- Até os judeus antigos já falavam da "Palavra de Jeová" como o próprio Deus agindo.
1.3 – "O Verbo estava com Deus": o plano estava na mente do Pai.
Estar "com Deus" aqui não significa uma segunda pessoa sentada ao lado de outra. Pelo contexto bíblico, significa que o plano da redenção estava guardado na mente, no coração e no propósito de Deus antes da fundação do mundo. Paulo fala do "mistério oculto em Deus desde os séculos" (Efésios 3:9). Pedro diz que Cristo foi "conhecido antes da fundação do mundo" (1 Pedro 1:20). O Verbo estava com Deus como o propósito está com quem o planeja.
1.4 – "E o Verbo era Deus": sem divisão e sem rebaixamento.
João não diz "o Verbo era um deus", nem "um pedaço de Deus". Diz que era Deus. Tudo o que Deus é, o Verbo é. Por isso Paulo afirma sobre Cristo: "Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Colossenses 2:9). Toda a plenitude, não uma parte dela. Quando você ouve falar de Cristo, está ouvindo falar do próprio Deus.
Isaías profetizou o nome do Menino que nasceria: "Deus Forte, Pai da Eternidade" (Isaías 9:6).
2.1 – "Todas as coisas foram feitas por intermédio dele".
Do anjo mais elevado ao menor dos vermes, tudo veio à existência pela Palavra de Deus. "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus" (Salmo 33:6). Mas a Bíblia afirma em Isaías 44:24 que foi o Senhor quem estendeu os céus "sozinho". Então quem criou tudo é o Deus único, e esse mesmo Deus é o que veio a nós em Jesus. Quando você adora a Cristo, adora o Criador do universo.
2.2 – O Autor da nossa salvação é o Autor do nosso ser.
Isso nos dá segurança. A obra da redenção não foi entregue a alguém fraco. Quem tomou sobre si a nossa salvação foi o mesmo poder que disse "haja luz" e a luz foi feita. Quem nos criou é quem nos refaz.
- Ele formou você; ele sabe consertar você.
- Nenhum problema seu é grande demais para quem fez o universo.
- A cruz não foi acidente: foi o Criador resgatando a sua criação.
2.3 – "Nele estava a vida": Deus é a fonte da vida.
Toda vida que existe, do fôlego do recém-nascido ao canto do pássaro, vem dele e é sustentada por ele. Mas há ainda mais: ele tem vida em si mesmo. O Deus verdadeiro é o Deus vivo, e é esse Deus que diz: "Eu sou a ressurreição e a vida" (João 11:25). Só Deus pode dar vida eterna, e Jesus a dá, porque Jesus é Deus manifestado.
2.4 – "A vida era a luz dos homens": ele nos deu a razão e quer nos dar a salvação.
A capacidade de pensar, de distinguir o certo do errado, de buscar a Deus: tudo isso é uma centelha da luz que vem dele. Se ele nos deu a luz da razão, quanto mais não nos dará a luz da revelação! E se, na criação, a vida estava nele, também a vida eterna está nele.
2.5 – "A luz resplandece nas trevas": e as trevas não prevaleceram.
A luz brilhou na consciência humana, nas figuras da lei e nas promessas dos profetas. O mundo caído tentou apagá-la com pecado, religiosidade vazia e incredulidade, e não conseguiu. Nenhuma escuridão na sua vida é forte o bastante para vencer a luz que habita em você. Se Cristo está em você, as trevas não prevalecem.
3.1 – "Houve um homem enviado por Deus": o ministério começa no chamado.
Observe o contraste. Do Verbo, João diz: "era Deus". De João Batista, diz: "houve um homem". João era grande, mas era homem. Foi Deus quem lhe deu a missão e a mensagem. Quem é chamado por Deus não precisa fazer nome para si: basta ser fiel ao envio.
- Ele não fez milagres, mas a vida e a doutrina dele davam testemunho de que vinha de Deus.
- O chamado de Deus sustenta quando o aplauso acaba.
3.2 – "Veio como testemunha": a luz brilha por si, mas os cegos precisam de quem aponte.
A luz não precisa de propaganda, mas quem está de olhos fechados precisa de alguém que diga: "O dia nasceu!" João era como o vigia da madrugada que anuncia a manhã aos que dormem. Todo crente é chamado a isso: não para ser a luz, mas para apontar a luz. Você pode ser o primeiro "testemunho" que alguém recebe de Cristo.
3.3 – "Ele não era a luz": humildade no ministério.
João era amigo do noivo, não o noivo. Os ministros devem ser honrados, mas nunca endeusados. Quem tenta tomar a glória de Cristo perde a honra de ser servo de Cristo. João disse mais tarde: "Convém que ele cresça e que eu diminua" (João 3:30).
3.4 – "A luz verdadeira": toda luz vem dele, mas só ele salva.
Há muitas luzes no mundo: filosofia, ciência, religião, moral. Todas têm algum brilho emprestado, e só Cristo é a luz verdadeira, a que ilumina por dentro. O evangelho não se limita a um povo: é para todo homem que vem ao mundo. A luz está disponível para todos; só não vê quem recusa abrir os olhos.
4.1 – "Estava no mundo... e o mundo não o conheceu".
Imagine o absurdo: o Criador entra na sua própria criação e a criação não o reconhece. Ele não veio em pompa, com exércitos e tronos. Veio como bebê numa manjedoura, como carpinteiro, como um homem sem lugar onde reclinar a cabeça. O mundo esperava glória exterior e não percebeu a glória que estava na simplicidade.
- Ele deixou a glória e entrou num mundo marcado pelo pecado.
- Ainda hoje ele passa despercebido por quem só procura o espetacular.
- Deus costuma estar mais perto do que imaginamos.
4.2 – "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam".
A dor aumenta: seu próprio povo, que tinha as Escrituras, as profecias e os sinais, o rejeitou. A rejeição dos que deveriam ter reconhecido o Messias machuca mais que a ignorância dos distantes. Muitos ainda hoje se dizem religiosos, mas não recebem a Cristo porque não querem largar o pecado nem deixar que ele reine. Religião sem rendição não salva.
4.3 – "Mas, a todos quantos o receberam": sempre há um remanescente.
Mesmo com a rejeição da maioria, houve quem recebesse. Receber a Cristo é crer no seu nome. E o nome dele diz tudo: Jesus, "o Senhor salva". Quem crê no nome de Jesus crê que o próprio Deus veio salvar. Recebê-lo é aceitar sua doutrina como verdade, seus mandamentos como justos e seu perdão como real.
- Receber é abrir a porta do coração (Apocalipse 3:20).
- Crer é confiar plenamente no nome que salva (Atos 4:12).
- Obedecer é viver o que se crê (Atos 2:38).
4.4 – "Deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus": adoção e novo nascimento.
Ninguém nasce filho de Deus por herança, e ninguém é salvo pela religião da família. Os judeus se orgulhavam de ser descendentes de Abraão, mas João diz que o novo nascimento não vem "do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus". A graça não corre no sangue como corre a corrupção. Jesus disse a Nicodemos: "Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus" (João 3:5). Quando Deus adota, ele também regenera: dá nova natureza, novo coração, nova vida.
4.5 – O privilégio: chamar o Deus único de Pai.
Que honra! O Criador do universo nos chama de filhos. Não somos mais estrangeiros, e sim membros da família. E tudo isso por causa de Cristo, o Deus que se fez homem para que homens pudessem ser feitos filhos de Deus.
5.1 – "O Verbo se fez carne": Deus não deixou de ser Deus ao se tornar homem.
Este é o centro do sermão. O Verbo, o pensamento eterno e o plano do Deus único, tomou corpo, alma e espírito humanos. Não é Deus transformado em homem, como se deixasse de ser Deus. Não é um homem que virou Deus, como alguns erroneamente ensinam. É o Deus eterno manifestado em carne. Em Cristo há duas naturezas: divindade plena e humanidade genuína. Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
- Como Deus: Deus Poderoso, Pai Eterno (Isaías 9:6), Onipresente (Mateus 18:20), Onisciente (João 21:17; Apocalipse 2:23), Criador (João 1:3).
- Como homem: nasceu de mulher, teve fome, cansaço, tristeza, orou, chorou e sangrou.
- Isaías 7:14 profetizou: "Emanuel", que significa "Deus conosco".
5.2 – Por que a "carne"? Porque a carne é fraca e mortal.
João escolheu a palavra mais humilde. Carne é fraqueza, mortalidade, limitação. O Todo-Poderoso se vestiu do que há de mais frágil em nós. Foi na carne que Cristo pôde sofrer, ser tentado, morrer e derramar sangue, porque Deus, em sua divindade, não pode morrer. Por isso Paulo diz que a igreja foi comprada com "o seu próprio sangue" (Atos 20:28): o sangue de Deus manifestado na humanidade. Sem carne não haveria cruz, e sem cruz não haveria perdão.
5.3 – Quando Jesus ora ou fala com o Pai, ele fala como homem.
Aqui está a chave para entender muitos textos que confundem. Quando vemos Jesus orando, dizendo "meu Pai é maior do que eu" ou clamando "meu Deus, meu Deus", é a humanidade falando ao Espírito eterno que habita nela. É o Filho, a natureza humana nascida de Maria, se relacionando com o Pai, a divindade que habita nele. Não são dois deuses conversando, nem duas pessoas divinas: é o homem Cristo Jesus em comunhão com o Deus que nele habitava. Por isso ele também pode dizer: "Eu e o Pai somos um" (João 10:30) e "Quem me vê a mim vê o Pai" (João 14:9).
5.4 – "E habitou entre nós": Deus armou a sua tenda no meio do povo.
A palavra original lembra "armar tenda", o tabernáculo do deserto. No tabernáculo de Moisés, Deus habitava entre os querubins. Agora, o tabernáculo é a própria humanidade de Cristo. Ele não veio como visitante de uma noite: ficou, caminhou, se alimentou, ensinou, curou, realizou sinais. O Deus que parecia distante ficou ao alcance das mãos.
- Ele habitou em humildade: "não tinha onde reclinar a cabeça".
- Ele habitou como peregrino: sua tenda não era permanente, pois a obra era a cruz.
- Ele habitou em luta: entrou no campo de batalha contra o pecado e a morte.
5.5 – "Vimos a sua glória... cheio de graça e de verdade."
Por trás do véu da carne, a glória de Deus brilhava: nos milagres, na doutrina, na santidade e na bondade de quem andou fazendo o bem. Os discípulos viram, ouviram e tocaram (1 João 1:1). Na lei, Deus se revelou com trovões no Sinai; em Cristo, com graça e verdade. A lei mostrava o pecado, e a graça o perdoa. A lei era sombra, e Jesus é a realidade.
E mais: a plenitude dele é para nós. "Do seu cumprimento todos nós recebemos, e graça por graça" (João 1:16). Graça sobre graça, uma depois da outra, sem acabar.
Resumindo o que vimos:
- O Verbo é o plano, a mente e a revelação do Deus único, eterno como o próprio Deus.
- O Criador de todas as coisas é o mesmo que veio nos salvar. Não há outro Salvador (Isaías 43:11).
- João foi a testemunha; Jesus é a Luz verdadeira.
- Quem recebe a Cristo, crendo no seu nome, é adotado e nasce de novo como filho de Deus.
- O Verbo se fez carne: em Jesus, Deus tem divindade plena e humanidade real, e é por isso que ele pode ser nosso Salvador.
O que fazer com isso?
Se Deus se fez carne para estar perto de você, você não precisa mais viver à distância dele. Se ele habitou entre nós, ele quer habitar em você. A Palavra eterna entrou na história; agora precisa entrar no seu coração.
- Receba-o: abra a porta e creia no nome de Jesus.
- Obedeça-lhe: arrependimento, batismo em seu nome e vida no Espírito (Atos 2:38).
- Testemunhe dele: seja como João, uma voz que aponta para a luz, e como André, que levou o irmão a Jesus.
Que o mesmo Deus que armou sua tenda entre nós arme sua morada em cada coração aqui. Porque Jesus Cristo é o Deus único, manifestado em carne, e a ele seja a glória para sempre. Amém!
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